Saímos de Larrasoaña às 7 horas mais faceiros porque seriam só 15 km nesse dia.Calculamos que faríamos três quilômetros por hora. Como nos dias anteriores, curtimos a beleza da vegetação, das paisagens sempre variando, das fontes que são abundantes por todo caminho. Tivemos sorte porque às 12,30 nos deparamos com os pórticos da entrada de Pamplona. Impressionante!!! A altura das muralhas, suas formas, sua imponência é algo indescritível! E a imaginação da gente voa: imagino sua construção. Vejo os operários erguendo aquelas pedras enormes com suas mãos machucadas, suor escorrendo por suas faces... Com o que suas mentes estariam ocupadas? Mais tarde, vejo a soldadesca escondida sob suas armaduras anônimas, sobre seus cavalos velozes, de curvas perfeitas, inteligentes, mas submissos. Escravos ou senhores?... Heróis, tiranos ou traidores... Tempos de guerra... tempos de paz... O tempo os igualou em suas tumbas. E nós: embasbacados ...
Sentíamo-nos penetrando num lugar sagrado... Jovens estudando nas praças, crianças e adultos desfrutando suas sombras... Paz... é tempo de paz. Será tempo de paz? Muita gente nas ruas... panfletos voando ... aglomerações de pessoas... A curiosidade nos levou a um panfleto quando descobrimos porque as lojas, tudo estava fechado. Até mesmo as farmácias. A cidade estava agitada por uma greve geral dos trabalhadores... Insatisfação... luta por melhores condições de vida... Os operários procuravam nervosos por seus grupos... caminhavam apressados... Depois que tudo acalmou, praça deserta, aproveitamos para fotografar. Aliás o Igor tirou uma especial, num coreto na praça central. Apareceu uma pomba voando (que ele não notara) ao meu lado. Ficou linda!
Satisfeita nossa curiosidade, fomos em busca de um albergue. Levamos uma meia hora para encontrá-lo. Igor parecia lembrar tudo, até a localização do albergue. Caminhava seguro e certo. No entanto, o local já não era o mesmo. Fora substituído por um novo e moderno. Muito bom, enorme, muita gente, atendimento perfeito, até com lavadoras e secadoras de roupa.
Depondo as mochilas, ao tirar o sapato, surpresa: meu pé estava cheio de bolha.
Passamos a tarde procurando farmácia e internet. Tudo fechado... Os restaurantes só dariam janta a partir das oito horas . E o menor valor seria dez dólares. Por sorte encontramos uma pizaria que nos serviu um "prato feito" gostosíssimo por 6,50. Foi nossa melhor janta até agora. Eu nem consegui comer tudo: salada, batata frita e dois tipos de uma carne enrolada num espeto. Eu não conhecia. Especialíssimo.
Só pelas 16,30 horas conseguimos achar uma farmácia aberta. Depois disso encontramos também um serviço de internet onde o Igor conseguiu descarregar suas fotos. De volta ao albergue, Igor, o meu enfermeiro particular, fez um curativo no meu pé. Fui sozinha à Catedral (lindíssima) receber a bênção dos peregrinos. Andei sozinha em Pamplona para carimbar nossas credenciais. Que chique!!!
Foi um dia maravilhoso! O Igor se mostrou atenciosíssimo! Já no dia anterior todo mundo perguntava pelo filho que carregara a mochila da mãe.
Hoje a admiração por ele aumentou. No início do caminho que teve poucas subidas, ele enfeitou minha bengala com flores. Cada flor diferente que encontrava, ele a colhia e juntava às outras. Quando paramos para lanchar as pessoas pediam para nos fotografae. Ou por causa da bengala enfeitada, ou, por causa do filho (lindo demais, é claro) que fazia o caminho com a mãe. Fomos os únicos: mãe x filho. Havia casais, idosos, jovens e até crianças. As mães, principalmente, perguntavam, comentavam, falavam dos seus fulhos... achavam lindo! Os homens elogiavam: "C'est un joyeuse bouquet", disse um francês.
Nossa baguete pequena acabou hoje. Ainda temos uma maçã, a laranja e linguiça (que o Igor adora). O queijo acabou. Degustamos o chocolate. Não precisamos parar tantas vezes.
Recolhemo-nos, fizemos nossas anotações, eu fiz sodoku. Inda bem que eu fiquei sabendo bem mais tarde que na noite anterior, nesse albergue, um peregrino tivera parada cardíaca e falecera. É verdade que ninguém imagina ou espera por algo assim.