segunda-feira, 31 de maio de 2010

31/05/2010 - Domingo

Nosso segundo domingo na Espanha. Fiquei na cama até às nove horas quando a mãe da Laura, Ana, nos levou ao posto médico. Ele recomendou "voltarem" pomada que eu já estava usando e repouso. Como nos ofereceram que ficássemos alguns dias aceitamos. Até melhorar. Fui à missa de meio dia. Depois o Igor fez comida de lata e fomos deitar.
Às 15 hs o Gustavo ligou. Disse que nesse dia fora o resto da mudança do Fernando. Ele está sozinho. Fiquei deitada até às 16 hs. Durante esse tempo o Igor foi conhecer a cidade. Hoje de manhã ele fez amizade com a Inês que ele achou muito bonita. É uma alemã de 28 anos que está passando ali uma temporada como auxiliar de hospitaleiro. A mãe e filha: Ana e Laura, são pessoas muito especiais. A Laura é simpaticíssima e alegra todo o albergue. Os quatro são hospitaleiros voluntários.
O albergue é muito acolhedor. É o mais bem cuidado de todo o caminho. Pelas fotos temos uma pequena imagem do jardim interno repleto de flores, principalmente de gerânios. Também, pelo carinho que recebem do Sr Wolf , não poderia ser diferente. Parece que tem mãos mágicas, aliás isso ele o demonstra muito bem quando chegam os peregrinos machucados.
Ele cuida de todos como cuida de suas flores. Uma das marcas do caminho são as pessoas maravilhosas e especiais que se conhece. Temos vontade de largar tudo para ficar para sempre junto delas. Mas... assim é o caminho... esse é o nosso caminho... Chegar... ver... sentir... e... seguir... sempre.

Mansilla de las Mulas a ... Mansilla de las Mulas - Parados e visita ao posto médico

Não tinha condições, tivemos que parar, o joelho da mãe estava muito ruim. Lobo e Laura foram muito gentis (como vários hospitaleiros no caminho) e nos deixaram ficar mais um dia.

Ao acordar, deixei a mãe repousando e desci para ver se havia algo que eu pudesse ajudar, via Laura, Lobo e a lindíssima Inês correndo para cima e para baixo. Não tinha muito que eu pudesse fazer, eles estavam em uma ótima sintonia e eu só atrapalharia.

Ana, mãe de Laura, ficou preocupada com a mãe e nos levou ao posto médico do povoado. Um médico nada simpático nos atendeu, disse que era uma tendinite leve, prescreveu uma pomada de voltaren e repouso. Ainda estávamos em dúvida sobre ficar em Mansilla ou ir a Leon e não perder os dias. O conselho do médico era ficar de repouso até o joelho voltar ao normal, eu e a mãe sabíamos que isso seria dizer adeus ao caminho, pois o joelho demoraria muito mais de dias do que tinhamos pela frente. Resolvemos ficar e aproveitar da hospitalidade do lugar (eu teria mais chances de conhecer Ines melhor).

Almoçamos bem, compramos nosso rancho na quitanda do lugar, é imopressionante a calma que o albergue tem de dia, muito diferente da bagunça de peregrinos a tarde. Na quitanda tinha champignos frescos, algo que nunca vira, passei várias vezes por eles morrendo de vontade de experimentá-los, eram enormes, chegou a hora. Fizemos raviolli em lata, almondegas e champignon. Fizemos uma siesta (a mãe tem que ficar o dia todo na cama poupando o joelho) e depois dei umas voltas pela pequena cidade.


domingo, 30 de maio de 2010

El Burgo Raneiro - Mansilla de las Mulas

O caminho ainda é plano e a trilha é a mesma, montada especialmente para os peregrinos. Começamos a caminha ao amanhecer. Em algumas cidades que passamos, os bares desenharam suas próprias flechas indicativas, desviando o caminho para que passe em frente a sua propriedade, uma vergonha.

O joelho da mãe só piora, vamos ter que repensar nosso caminho no próximo albergue. Conseguimos camas em um albergue que ficará na história desse nosso caminho, ele superlotou mais tarde no mesmo dia. Estamos indecisos em continuar ou não e como faremos isso, a certeza é que o joelho da mãe está muito ruim.

Os hospitaleiros sao umas figuras: Lobo, Ines, Laura e sua mãe. Lobo é um velho peregrino que já fez o caminho incontáveis vezes, é uma lenda do caminho (fez imposição de maos na mae, o que a conquistou imediatamente).

Finalmente tomei uma cerveja, uma maravilha. Fizemos um bocadilho na propria cozinha do albergue.

30/05/2010 - sábado

Deixamos El Burgo Ranero às 6,45 hs. No início foi tudo bem. Mas, logo, logo minha perna esquerda começou a incomodar. Foi um dia de Calvário: Dor, dor, dor... Quando descansávamos eu quase não conseguia recomeçar. Preferia continuar porque o recomeçar a andar era pior. Além disso, apesar do caminho plano, com árvores ao longo de todo trajeto, tudo era monótono. E eu com pena do Igor que, apesar do tendão dolorido quase esvaziou minha mochila e carregou tudo. E, nossa próxima parada, Mansilla de Las Mulas parecia não chegar nunca. Mas... chegou. Só havia um albergue, mas graças a Deus, havia lugar para todos. O Senhor Lobo, como se identificou, o hospitaleiro, sempre tinha lugar para mais um colchão, nem que fosse no corredor. Quando nos viu, parece que adivinhou a nossa dor tanto que se ofereceu para cuidar de nós. Eu, assim que recebi minha cama, caí nela e chorei tudo a que tinha direito, triste e com medo de talvez não poder continuar. Coloquei por uma hora compressa de gelo. Quando conseguiu um tempinho, Seu Lobo colocou suas mãos suavemente nos meus ombros por algum tempo e a dor sumiu. Acho que deve ter mãos mágicas. Depois cuidaria de minha perna e me daria uma joelheira. De fato, fez por duas vezes, imposição de mãos no meu joelho. Eu ainda sentia dor, mas depois já conseguia subir a escada normalmente o que quando cheguei só consegui com enorme dificuldade. Igor o fotografou e pediu seu endereço para lhe mandar uma cópia. Quando nos deu seu cartão vi que seu nome era Wolf Schneider. Vibrei.Wolf em alemão é LOBO. E Schneider era o sobrenome de minha avó Elisabeth, avó materna. Coincidências?

Ele nos ofereceu o albergue para ficarmos mais um dia pois achava que eu tinha que melhorar da perna, ou que fôssemos de carro ou ônibus até Lion. Fico com pena do Igor, e fico triste por decepcioná-lo, mas é o que pretendemos fazer. Não continuaríamos no dia seguinte.

sábado, 29 de maio de 2010

29/05/2009 - sexta feira

Senhor Henrique, atenciosíssimo, acordou-nos com uma música gregoriana cantada às 6,45 hs. Preparou e tomou café conosco. Serviu-nos pessoalmente: 7 pessoas. No dia anterior, quando de nossa chegada ao albergue, e nos apresentarmos como mãe e filho, ele felicíssimo disse: "Vocês são uma bênção aqui." Ao nos despedirmos repetiu isso e desejou-nos muitas bênçãos para o caminho.
Havia duas opções de caminho a partir dali: um, francês, todo arborizado, com lugares de descanso, plano, e, o outro, o caminho romano que nos desaconselharam por ser mais deserto e menos usado. Escolhemos o francês. Saímos às 8,15 . Fizemos 18 km em cinco horas. De início estava gostoso: não havia vento, nem pedras, nem sol forte. Pudemos caminhar com manga curta. Colhemos flores pelo caminho para enfeitar nossas bengalas. De ambos os lados, plantações de trigo ou terrenos preparados para o plantio. Avistamos algumas vezes ao fundo, à direita,a neve nas Montanhas de EuropaPor todo caminho havia uns cocozinhos como de capivara. Perguntamo-nos de que bichinho seria. Até que num gramado no qual descansamos descobrimos serem de ovelhas pela quantidade de lã espalhada pelo local. Perto do meio dia com o sol já mais quente vimos vários lagartinhos se deleitando ao sol e que com nossa passagem se assustavam e procuravam suas toquinhas. Depois de lancharmos, preparamo-nos para mais umas duas horas de caminhada, pelos nossos cálculos, quando eis à nossa frente: El Burgo Ranero. Eram 12,45 hs. O albergue, gratuito estava fechado. Abriria às 13,30.
Na entrada da cidade uma bênção: uma revoada de oito cegonhas que bailavam no céu. Foi lindo: primeiro apareceram quatro, logo mais duas e outras duas. Eu disse ao Igor: vieram nos recepcionar. E ele bem que o merecia pelo carinho com que as observou e fotografou na sua primeira peregrinação. Numa caminhada pela cidade, pequena, como muitas desse interior espanhol, uma das imagens mais lindas foi o ninho das cegonhas. Na torre da igreja, um ninho de cada lado e a mãe ciosa cuidando dos filhotes. Quando, quase no albergue , voltei-me para observá-las uma vez mais, surpresa: Os três filhotinhos se ergueram no ninho sob a atenção da mamãe cegonha. E, é claro, ele as fotografou.
O coaxar variado das rãzinhas a nossa passagem também nos encantou.
às 17 hs, já com fome, jantamos: feijoada, mexilhões, tomate e pão. Gastamos pouco nesse dia. O resto do dia passamos conversando com o casal Divina(79 anos) e Leandro (84 anos). Eles nos contaram que as cegonhas vivem aqui desde março a setembro, época em que procriam, quando então fogem do frio endo para a África onde não procriam. O casal mora ali. Sentem-se muito sós, por isso à tarde vem ver os peregrinos e tentam contactá-los. Seus filhos
foram para centros maiores. O lugar é pequeno, com 310 habitantes e não tem muito futuro.
"Chopo", nos disseram eles, é o nome da árvore linda que solta uma lãzinha por toda Espanha. Como estou com uma tossezinha chata, a Divina achou que era alergia que é o que a lãzinha provoca em muitas pessoas nessa época. Eu acho que é do vento gelado que nos castigou no dia em que saímos de Carrion de Los Condes. Jean Pierre é o nome do hospitaleiro desse albergue.

Sahagun a El Burgo Raneiro

Sonhei a noite toda com a Elaine. Acordei com padres cantando, o Henrique combinou que despertariamos todos na mesma hora (6:45) e ligou uma fita de canto gregoriano. Dessa forma ninguem incomodaria o outro e ainda por cima poderíamos fazer um café da manhã comunitário. Depois de tudo isso, nos despedimos e começamos a andar, já era tarde.

O tempo esquentou, de duas rotas que tinhamos, escolhemos a mais segura, o caminho frances. De tão seguro o caminho acabou sendo meio chato, uma estradinha toda certinha e bem feita. O sol estava bem forte e sofremos. Chegamos a uma cidade e não haviamos percebido que era nosso destino, até uma placa nos dar a grata surpresa.

Fomos recepcionado por uma revoada de cegonhas e rumamos ao albergue municipal (gratuito).




sexta-feira, 28 de maio de 2010

28/05 - quinta feira

Não sei se por causa do vinho, mas foi uma noite de pesadelos: acidentes, machucados, tios já falecidos, primos, uma miscelânia: até briguei com o Gustavo. Falei alto tanto assim que o Igor me acordou com um toque, graças a Deus.
Saímos às 7,30 hs. Passamos por uma criança ainda na cidade: "Deve ser uma das duas", falei, pois Nenê nos dissera que só havia duas crianças na cidade. Aliás, passamos por muitas cidadezinhas que pareciam abandonadas. Dizem que são realmente abandonadas pois os filhos vão para os grandes centros para estudarem e não voltam. Acabam levando os pais. Um jornal mostrava a única criança de uma cidadezinha e tinha três anos.
Como nos dias anteriores tudo era plano com plantações de trigo por todos os lados. Muuuuuuuuuuito frio! Muuuuuito vento! Tivemos que proteger mais uma vez nossas orelhas. Nossas mãos geladas! O sol nos agraciou mas o vento chegava a empurrar-nos com as mochilas, desequilibrando-nos.
O Igor chamava minha atenção para os presentes do caminho: ao longe as Montanhas de Europa com neve, as ondulações dos trigais embaladas pelo vento, uma verdadeira dança. Lembrei muito da mana Ilse. Ela era uma apaixonada por trigais. O vôo solitário de uma ave na imensidão do azul (condor, águia, ave de rapina - não importa), ora parecia acompanhar-nos, ora planava como se suspensa no infinito, dando asas também a nossa imaginação. De repente o perfume que nos tem acompanhado durante dias. A gente respira fundo e começa a procurar sua origem. Ei-la novamente a nossa frente: o buquê de florzinhas amarelas cujo nome queríamos descobrir em agradecimento pelo aroma especialíssimo com que nos vinha brindando por toda Espanha. É claro que houve muitos outros perfumes: de rosas, de jasmins; esse , no entanto acompanhou-nos por todo caminho.
Caminhamos devagar para observarmos tudo: um verdadeiro passeio.
Chegando à cidade o albergue ainda exigiu uma boa caminhada pela cidade. Parecia não chegar nunca. Ei-lo finalmente: O Albergue das Monjas Beneditinas. Chegamos à uma hora mas só abriria à 1,30. O senhor Henrique, o hospitaleiro, foi muito prestativo e gentil. Explicou-nos o regulamento minuciosamente. Como de costume, tomamos banho, lavamos roupas, descansamos. O Igor leu e eu comecei os meus relatos. Igor ficou de porteiro durante uma saída do Sr. Henrique. às l9 hs. houve as "Completas", orações diárias das Monjas às quais fomos convidados a assistir. É uma oração cantada em latim acompanhada de órgão de tubos. Aliás, na Espanha, todas as igrejas ainda tem esses órgãos de tubos. (Lembrava sempre do Frei Léo, freizinho que sofria de Alzheimer. Quando tentava fazê-lo lembrar do passado sempre
dizia que tocava órgão de tubos. ) Eram apenas oito monjas das quais três bem velhinhas (quase não se aguentavam em pé) e apenas três não grisalhas, isto é, mais novas. Não havia monjas jovens. Ao final da oração a mais nova nos chamou, peregrinos, ante o altar e leu uma bênção lindíssima que pedi para copiar.
Depois, de volta ao convento, discutimos nosso percurso do dia seguinte com as alemãs Hedwig e Verônica quando também pude treinar meu alemão. 9 hs - cama. Ficamos, dessa vez só em três. Fez-nos companhia um americano que reencontramos inúmeras vezes pelo caminho. Igor falava com ele em Inglês. Ainda escrevi até às 10 hs quando fui dormir. Adorei dormir mais uma vez num convento.
Ainda preciso registrar o carinho com que o Igor cuidou mais uma vez das minhas bolhas, ontem e hoje e, agora também das minhas cãimbras e dores com massagem. Compramos uma pomada pois o spray não fez efeito.

Calzadilla de la Cueza a Shahagun

O caminho continua reto e plano, o vento gelado castigou um pouco (gostaria que a neve dos picos europa que vejo ao longe fossem arrastadas até aqui) mas, perto de Shahagun, o sol apareceu e esquentou bem. Perto da cidade, parecia que iriamos desviar dela, mas era apenas uma pequena volta que colocava uma pequena igreja no caminho.

A cidade possui tres albergues, sendo que o último, das monjas beneditinas, é o único de graça, lógico que foi o que escolhemos. Deixamos nossas mochilas na porta, indicando que eramos os primeiros na fila e fomos passear um pouco para esperar abrir. Quando abriu fomos apresentados ao monastério, gostei muito, Henrique o hospitaleiro, cuidava sozinho de tudo.

Ficamos somente em 6 pessoas, dividindo o quarto com apenas uma (o americano que disse que reencontraríamos algumas vezes). Passeamos pela cidade e compramos algumas provisões para comer no albergue (que possuia um microondas que somente Henrique podia manejar) e também para o nosso café da manhã comunitário.


Lista Shahagun:
Betadine
Voltaren
Algodão
Desodorante
Comida
Leite condensado ;)
Abridor de garrafas (cansamos de pedir emprestado)
Shampoo
Algo para lavar a roupa

quinta-feira, 27 de maio de 2010

27/05 - quarta-feira

Saímos de Carrion de Los Condes às 7,30hs. Dormimos um pouco mais do que nos outros dias. Aliás, todos os albergues estabelecem um horário máximo para nossa saída. É que a tarde já chegam outros peregrinos e todos eles , como nós, encontrarão tudo limpinho a sua espera.
Foi uma reta só de planícies e plantações de trigo cercadas de um tipo de árvore muito linda e esguia servindo de paravento para as plantações. À direita, no horizonte longínquo vimos algumas montanhas com neve, os Picos de Europa. E o Igor, louco de vontade que nevasse. O céu nublado amainou o início da caminhada mas soprava um vento gelado que nos fez proteger as orelhas. Paramos umas três vezes, principalmente quando meu ombro esquerdo reclamava. Seriam só 17 km mas a cidade de Calzadilla de La Cueza não aparecia. Até que, de repente, ei-la numa baixada com um albergue bem na entrada. Um lugarzinho pequenino, sem supermercado mas que para surpresa nossa tinha como dono, ou hospitaleiro um brasileiro. Seu ajudante um simpático baiano, "Nenê", com doutorado em fisioterapia e que recebe o pessoal com muita simpatia e organização. Outro rapaz que sintonizou muito com o Igor, Bart Simpson, búlgaro, que já fez 1.800 km de caminhada passando pela África e vários outros países, estava acompanhado por um lindo pastor alemão. Depois de um banho gostoso, roupas lavadas, um almoço de pão,, frutas, linguiça e queijo descansamos num gramado ensolarado com piscina. De repente apareceu outro brasileiro Marcelo Nicoletti, de Santa Catarina que tem um livro publicado sobre sua primeira pergrinação. Conversamos, fizemos amizade. Depois o Igor fez curativo nos meus pés. A Hedwig, alemã com quem fiz amizade fez questão de fotografar esse momento. Batemos também um papo com Nenê que nos falou de sua família do Brasil, dos seus pais, de sua filha de 20 anos, Maiara (ele tem 42 anos, com cara de guri). Gostamos muito também do Charles, camareiro do hotel, muito querido e o César, dono do albergue e do hotel, simpaticissimo. Jantamos no hotel. Igor aceitou o convite e assistiu ao jogo do Barcelona enquanto eu me recolhia.

Carrion de Los Condes até Calzadilla de la Cueza - Brasileiros no caminho e albergue

Acordamos tarde dessa vez, 7:30. Essa é a parte do caminho mais monótono, muitas plantações e uma enorme estrada reta, muito poucas árvores. Como o ombro da mãe doia bastante, resolvi, apesar dos protestos dela, passar peso da mochila dela para a minha e peguei o saco de dormir.

Muita estrada e pouca sombra, ainda bem que o sol não está forte. O vento é bem grande e está frio, paramos em um trailer na beira do caminho para tomarmos um café e fazermos nosso lanche. Encontramos uma brasileira muito faladora que faz o caminho todo ano. Nenhuma das cidades que viamos era o nosso destino, de surpresa aparece Calzadilla numa depressão da estrada. É uma cidade muito pequena e o albergue é uma das primeiras construções que se vê. Chegamos cedo 12:00, hora que o albergue abre.

Logo que cheguei percebi eram brasileiros que cuidavam do albergue. Eram tres funcionarios: Nenê - Salvador, Charles - Ribeirão Preto e Bart (a quem reencontraríamos) - Bélgica. Por sermos brasileiros ele nos conduziu ao andar superior, vedado aos demais peregrinos. Encontramos também um brasileiro escritor, Marcelo de Santa Catarina, que fez um livro (sobre o caminho é claro) e mora na Itália.

Apareceu uma grande bolha no calcanhar da mãe e não tive dúvida, passei uma linha para drenar. Agora estou indo pegar uma outra cerveja e fumando um cigarro na beira da piscina (que não dá pra entrar, tá muito frio). Utilizei o computador pessoal dos hospitaleiros para transferir as fotos ao pen drive.

Fui convidado pelo Espanhol dono do Albergue e pelo Nene e Charles para tomar uma cerveja no hotel deles e assistir a um jogo de futebol. Fui pela cerveja. A mãe resolveu dormir. Bart que estava todo entusiasmado pois recebera sua pensão de desempregado europeu (1000 euros) acabou desmaiando e não foi ao hotel. Acordei no meio da noite para ir ao banheiro e resolvi abrir a janela. Estava a noite mais bonita que eu já vi, uma enorme plantação embaixo de um céu estrelado magnificamente. Impressionante.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

26/05 - Uma terça-feira

Está uma bagunça essa nossa segunda viagem, agora só em sonhos. É que o Igor ficou ausente alguns dias e agora ele me passa a perna, correndo na minha frente. Mas eu... continuo no meu passo. Enquanto ele já está em Carrion, fiquei em Fromista, que eu amei,principalmente pelas aves que fazem seus ninhos no alto das torres: as cegonhas. É algo indescritível! Pode-se ficar horas a observá-las: indo e vindo. São lindas!
Depois de uma noite de pesadelos em que me senti perdida (Sonhei que a senhora que nos recebeu, a hospitaleira, estaria desenganada, com câncer.) deixamos Fromista às 6,30 horas. A caminhada esteve a melhor até aquele momento pois ficou nublado todo tempo. Algumas pontadas no dedão do pé direito, sentindo um pouco a bolha do pé esquerdo e uma cãimbra começando na perna direita, dores nos ombros e só. Não teve subidas, tudo plano, plantações de trigo infindas. Com o universo conspirando ao nosso favor chegamos mais rápido que nos outros dias: às 11,30 hs. Portanto, o que no início e com subidas levávamos 2,30 hs, depois 3hs, nesse dia fizemos 4km por hora.
O albergue que encontramos é do Monastério de Santa Clara, irmãs clarissas.O melhor até agora pois tem só quatro camas por quarto. Tivemos a companhia de dois senhores. O chuveiro delicioso. Aliviei minhas costas com a força da água. Descansamos um pouco e com isso perdemos o horário do super mercado pois na Espanha tudo fecha, até o comércio, das 14 às 17 horas. Passeamos pela cidade, fotografamos seu rio maravilhoso, as praças deliciosas, amores perfeitos exuberantes . Depois compramos uma janta de micro ondas. Voltando ao Mosteiro jantamos, lemos um pouco e eu fui à missa e bênção dos peregrinos. O Padre explicou-nos sobre as obras de arte da igreja (Nossa Senhora do século XII)
Ao voltar encontrei o Igor, já dormindo. E, é claro, eu também me recolhi. Achei chique demais dormir num mosteiro de clarissas. Infelizmente, como elas se escondem, não tivemos a sorte de encontrar alguma delas.Aliás, há anos atrás (na minha juventude) sonhei em me tornar clarissa.
Tenho ainda hoje um carinho muito especial por esse modo de vida. Admiro-o muitíssimo.

Fromista a Carrion de los Condes - de volta a estrada

Acordamos as 6 horas, começamos a caminhar as 6:30, parecia que iria chover, mas o tempo ficou apenas encoberto, o que é bom pois temos pouca sombra nessa parte do caminho, perfeito para caminhar. As bolhas e os ombros continuam a incomodar muito a mãe. Muitas retas pela frente, a paisagem é descampada, tem uma trilha ao lado da estrada para os peregrinos. Compramos um pouco de comida e chegamos bem cedo em Carrion de los Condes, 11:30.

Ficamos em um belo albergue de Santa Clara, em um quarto de apenas 4 camas. Tomamos um banho e lavamos roupas. Encontramos pela primeira vez um americano que voltava bebado e feliz do supermercado (disse que a cerveja estava muito barata apesar de quente), o reencontrariamos várias vezes mais.

Fomos conhecer a cidade esperando o tempo passar para comprarmos comida, passeamos por um parque muito bonito. Estou com muitas saudades da Luna e do Bilé. Conseguimos ligar para o Pai, que está sofrendo de saudades da mãe (hehehehe).

Compramos allmondegas, espaguete bolonhesa, umas ameixas enoooormes e até uma sobremesa (10 euros tudo). Utilizamos a cozinha do albergue, encontramos outro americano que, alguns dias depois, teria que voltar para casa pois o joelho dele estava completamente inflamado, nesse dia ele já estava mancando muito. A mãe foi a missa do peregrino.

terça-feira, 25 de maio de 2010

De ônibus

No dia 25/05, uma segunda feira, decidimos fazer 213 km de ônibus para amenizarmos um pouco os outros dias. Saímos de Los Arcos às 8,30. Pegamos três ônibus até o meio dia qundo teríamos que esperar o último que sairia às 17,30 . O Igor queria mostrar-me a igreja gótica lindíssima que fica perto da rodoviária pois teríamos muito tempo. Fomos até a igreja. Como cobravam uma taxa muito alta (7 euros), vimos muito pouco. E foi só o que vimos da cidade pois para voltarmos à Rodoviária nos encharcamos pois começou a chover torrencialmente e assim só nos restou esperar o ônibus e tentar secar nossas roupas. Nesse trecho observamos uma paisagem diferente: campos e, pela priemira vez arbustos em vez das árvores esguias e altas que há por todo caminho. Arbustos arredondados e espalhados. Lembrei dos pampas gaúcho.
Chegamos em Fromista às 19 horas. Lugarzinho pequeno, foi fácil encontrar o albergue. Como todos os anteriores, lotado mas com vaga. Procuramos uma farmácia para comprar algo à base de Magnésio que, segundo nos disseram, evita cãimbras. Comemos nossos bacadilhos comprados durante a viagem e fomos dormir: o Igor numa beliche e eu, pela primeira vez numa cama simples.

Ainda em Los Arcos

Achei interessante que o Padre quando nos deu a bênção dos peregrinos, pedindo que cada um falasse sua nacionalidade, se dirigiu a cada um em sua língua. Pa ra mim ele disse apenas "Muito Obrigado".
Peço tanto, cada dia, enquanto caminho, por todos os meus: força, luz, coragem nos momentos difíceis. Nesse dia, principalmente, tive muita dor nos pés com umas cinco bolhas nos dois pés. Na noite em Estella, tive que dormir na cama beliche de cima 9separada do Igor) e para descer tive caimbra violenta que me doeu no início da caminhada e depois nos dois descansos. Mas, disse-me um companheiro grisalho: "Assim o caminho tem mais valor (com os pés em frangalhos). " Outra coisa são os ombros: o peso da mochila faz-me andar meio curva e há momentos em que a dor é insuportável. Você tem vontade de gritar de dor.
O velhinho grisalho (lindo) também elogiou o Igor por fazer o caminho com "la madre". "Isso é mui bello", dizia ele. E ele, realmente estava incansável. Sempre me ajudava a por e tirar a mochila. Acho que sozinha nem conseguiria colocá-la. Carregava a bengala quando eu sentia muita dor nos ombros. E eu nem precisava me queixar. Ele sempre adivinhava.Na noite de nossa chegada em Los Arcos, me apresentou todo feliz a um morador da cidade com quem fizera amizade: Francisco Xavier que lhe pagou uma garrafa de champagne e cerveja.
Adorava vê-lo falando com todo mundo: em espanhol, em inglês.Até brincava com seu pouco alemão e francês. Mas a sua companhia foi gostosa demais. às vezes queria forçar-me a pedir as coisas para que eu treinasse meu espanhol, mas eu sei muito pouco. Sou tímida, e ele acabava fazendo a solicitação. Também, dizia eu: foi você que inventou a brincadeira... que arque com as consequências. Essa experiência de integração com todos os povos foi divina.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

De Estella a Los Arcos

Hoje foi um dia diferente. Ao sairmos, de manhã , percebi que estava com mais bolhas das quais o Diego também cuidou. Saímos mais cedo: 6,30 horas. Já fizéramos meia hora de caminhada quando o Igor procurou pelo celular e não o encontrou. Voltou correndo ao albergue enquanto eu o esperei numa pracinha, com um frio de doer. Os peregrinos todos nos ultrapassaram e perguntavam pelo Igor. Ele voltou exausto sem tê-lo encontrado. Nova saída às 7,30 horas. Com 19 km pela frente. No início tudo foi tranquilo, mas ameaçou chuva. Pusemos as capas e com isso acho que espantamos a chuva pois ela esperou até chegarmos a Los Arcos. O resto do caminho foi sob sol causticante. Descansamos uma duas vezes. Chegamos às 13,30, mais rápido do que planejáramos. O albergue é gostoso. Tomamos banho, lavamos nossas roupas, o hospitaleiro cuidou das minhas bolhas de um modo muito peculiar. E... aí começou a chuva. E... até pedras. Agradeci ao universo por estar albergada.

Fizemos aí uma nova escala de viagem para fazermos um trecho de ônibus e encurtar as distâncias mais longas. Continuaríamos de ônibus.

Às 19 horas teve a missa com bênção dos peregrinos. O Padre, muito simpático, mandou cada um dizer sua nacionalidade, deu-nos a oração do peregrino e pediu que a rezássemos todo dia. Pediu-nos orações pelos enfermos de sua paróquia que confiam muito nas preces dos peregrinos e ouvem sempre essa missa pelo rádio local.

A igreja é uma obre de arte. Nesse dia teve primeira comunhão das crianças da paróquia. Depois queríamos jantar. Como o restaurante estivesse super lotado, compramos um pão especial: baguete com lombo defumado e pimentão. Especialíssimo. Sentamos em companhia de três franceses. Tive muita chance também de treinar meu alemão com Irmgart, alemã muito simpática; com Isca e Iris, amigas desde Puente de La Reina que encontrávamos volta e meia.

Conhecemos também Sabrina, alemã, garotinha que esteve quatro semanas no Recife com um grupo de jovens de sua paróquia. Em Estella também treinei meu alemão com um senhor de mais idade, cujo nome não lembro. Conhecemos ainda o Frank, alemão; o Thomas, espanhol, muito legal. Teve ainda o mexicano Eduardo, a ucraniana (que fizera voto de silêncio), O Santiago, também mexicano. Uma médica que já fez trabalho de assistência em Moçambique, com os padres reparadores, onde aprendeu um pouco de português , também está com a perna enfaixada. Aliás, encontramos muita gente machucada.

domingo, 23 de maio de 2010

Um ANJO no caminho

Saímos às 6,30 horas de Puente de La Reina. Pela primeira vez mais tranquilos pois seriam só 19 km. Como de costume saímos sem café porém na segunda cidadezinha paramos para um cafezinho. Compramos meia baguete e linguiça. Aliás essa baguete espanhola é maraaaaaaaaaaavilhosa. É um pão especial e não se compara (apesar de ser parecido) ao nosso pão francês.
Teve várias subidas bem difíceis. Com respiração ritmada eu até que me dei bem. Aguentei firme.
Quando saímos chuviscava. Chegamos a vestir as capas. Mas não passou de ameaça. Fomos bem até mais ou menos meio dia quando o sol saiu. E aí, sofremos um bocado. Nosso almoço foi pão com linguiça e o resto do vinho.
Durante um trecho do caminho lembrei de mamãe (Era muito pedregoso, uma subida íngreme) e de uma passagem da minha infância com mamãe grávida, num morro onde ela teria que fazer pasto para os animais. Foi muito difícil para ela e ela chorou. Senti sua presença, agradeci por seu carinho, seu amor incondicional, seu sofrimento, e, sei que hoje ela aplaina os nossos caminhos.
Como planejáramos chegamos às 14,30 horas. Conseguimos vaga no Albergue paroquial. Ficamos surpresos com a recepção pois além de não cobrarem nada nos receberam com cerveja, suco, frutas e janta às 20 horas. O melhor desse albergue foi conhecermos um hospitaleiro de nome DIEGO, "O Anjo do Camminho", e um pouco de sua história fantástica. Ele é genial. Além de seu humor contagiante, é meio enfermeiro e massagista . Fazia massagem nos pés ou pernas de quem quisesse, cuidou de nossas boçhas, jantou conosco. Um verdadeiro "Anjo do Caminho". Aliás a janta foi preparada pelos peregrinos voluntários. Igor foi um deles. Pode assim treinar o seu espanhol com duas lindas peregrinas.
Às 19 horas fui à igreja para a bênção dos peregrinos. Aliás um costume que observei
durante todo o caminho. Em todas as igrejas pelas quais passamos, há às 19 horas a reza do terço seguida pela missa e bênção dos peregrinos. Infelizmente essa devoção é mantida por senhoras idosas. Há pouca presença de homens ou pessoas mais jovens. Raríssimas crianças.
Pela primeira vez o Igor dormiu noutra repartição da minha. Nesse albergue homens e mulheres ficaram separados. Aliás foi o único albergue em que isso aconteceu.

Quase uma semana...

Faríamos 15 km. Saímos de Puente de La Reina ao amanhecer. Em geral o sol ainda não aparece quando saímos. É lindo o nascer do sol, assim em terras estranhas... Engraçado...quando em nossos lares raramente nos damos ao luxo de observar, admirar um nascer de sol. Não temos tempo... Quando caminhamos, nada disso se perde. Sentimo-nos integrados ao que acontece ao nosso redor.
O caminho foi tranquilo a não ser a partir do meio dia até as duas horas. O calor foi terrível. Aliás, foi-nos aconselhado que não caminhássemos entre meio dia e duas horas da tarde. Nesse período o sol é inclemente. Mas... a gente quer chegar. Ficamos num albergue dos Padres Reparadores. Acolhidos, banho gostoso, roupa lavada, descansamos num gramado ao lado do albergue. Deitados na sombra, Igor descobriu um ratinho no casarão abandonado, ao lado. Distraiu-se com ele por algum tempo e o fotografou.
Como o Igor não comera nada durante o dia sentimo-nos no direito de degustar uma janta melhor, acompanhada de vinho. Pedimos uma garrafa. Meio tontos, guardamos um pouco de vinho para o caminho. Durante o dia só tomáramos água. Eu comi uma maçã. Numa cama gostosa refizemos nossas forças.

sábado, 22 de maio de 2010

Quarto dia de caminhada

Saímos de Pamplona às 7 horas. Igor estava preocupado pois haveria subidas e é quando eu tenho mais dificuldade. Até o Alto do Perdão a caminhada foi alegre e tranquila, colorida e perfumada. Nesse trecho há uma fonte que o Igor relembrara da sua primeira caminhada. Junto a ela, ele iniciou um "montículo" de pedras das quais há muitos ao longo do caminho. São sinais que os peregrinos deixam como orientação para os demais. Os passantes deixam nele a sua pedrinha, e o montinho vai crescendo...
No Alto do Perdão ventava muitíssimo. Saíramos sem café. Combináramos lanchar somente no alto do monte. Mas com o vento frio, começamos a descer e lanchamos protegidos do vento. O Igor não comeu nada até o final de hoje. Acho que está jejuando. Eu comi meia maçã. Até aí tudo foi bem pois o céu estava nublado e a paisagem liiiiiiiinda. Chegamos no topo dez pra as onze. Curtimos a paisagem, tiramos fotos e descemos. Daí há pouco o sol saiu e tudo ficou mais difícil. O Igor jogava água dentro do meu chapéu para diminuir o calor. Chegamos exaustos às 14,30 horas. Tomamos banho, conhecemos a cidade, descansamos no gramado do albergue e jantamos com uma garrafa de vinho. Restou um pouco para a viagem. Aliás, descobrimos que faz muito bem tomar um golezinho de vez em quando. Parece que renova o ânimo.
Como em todas as cidades, as de hoje primaram por suas roseiras imensas, pelos gerânios floridos e betúnias de todas as cores. Essas me lembraram da grande amiga Virgínia.
As rosas? Ah!!!!!!!! Elas existem em todas as cores possíveis e imaginárias, até matizadas. As fotos o demonstram muito bem.
Como ontem, o Igor encheu minha bengala de flores. Ele é o filho querido, amoroso, atencioso que toda mãe gostaria de ter. Companheiro e amigo, protetor. Ele mandou mensagens para a Nanda,. Gustavo e Carina. As duas responderam. Gustavo não.
Quando nos recolhemos trovejava lá fora. Eram 21,30 e ainda estava claro. Torcemos para que não chovesse no dia seguinte. Se bem que esse era um desejo só meu, pois o Igor torcia por pegar uma chuva bem gososa.
Igor estava meio chateado pois veio com o propósito de conhecer a Igreja de Eunates (famosa Igreja templária) que não visitou em sua primeira caminhada. E... dessa vez, não deixaria de visitá-la. Quantos a conheciam a recomendavam.
Infelizmente, apesar de pedirmos informações, não a encontramos. Parece que fica um pouco afastada do trajeto que percorremos. Será que algum dia teremos outra chance?
teste

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Rumo a Pamplona

Saímos de Larrasoaña às 7 horas mais faceiros porque seriam só 15 km nesse dia.Calculamos que faríamos três quilômetros por hora. Como nos dias anteriores, curtimos a beleza da vegetação, das paisagens sempre variando, das fontes que são abundantes por todo caminho. Tivemos sorte porque às 12,30 nos deparamos com os pórticos da entrada de Pamplona. Impressionante!!! A altura das muralhas, suas formas, sua imponência é algo indescritível! E a imaginação da gente voa: imagino sua construção. Vejo os operários erguendo aquelas pedras enormes com suas mãos machucadas, suor escorrendo por suas faces... Com o que suas mentes estariam ocupadas? Mais tarde, vejo a soldadesca escondida sob suas armaduras anônimas, sobre seus cavalos velozes, de curvas perfeitas, inteligentes, mas submissos. Escravos ou senhores?... Heróis, tiranos ou traidores... Tempos de guerra... tempos de paz... O tempo os igualou em suas tumbas. E nós: embasbacados ...
Sentíamo-nos penetrando num lugar sagrado... Jovens estudando nas praças, crianças e adultos desfrutando suas sombras... Paz... é tempo de paz. Será tempo de paz? Muita gente nas ruas... panfletos voando ... aglomerações de pessoas... A curiosidade nos levou a um panfleto quando descobrimos porque as lojas, tudo estava fechado. Até mesmo as farmácias. A cidade estava agitada por uma greve geral dos trabalhadores... Insatisfação... luta por melhores condições de vida... Os operários procuravam nervosos por seus grupos... caminhavam apressados... Depois que tudo acalmou, praça deserta, aproveitamos para fotografar. Aliás o Igor tirou uma especial, num coreto na praça central. Apareceu uma pomba voando (que ele não notara) ao meu lado. Ficou linda!
Satisfeita nossa curiosidade, fomos em busca de um albergue. Levamos uma meia hora para encontrá-lo. Igor parecia lembrar tudo, até a localização do albergue. Caminhava seguro e certo. No entanto, o local já não era o mesmo. Fora substituído por um novo e moderno. Muito bom, enorme, muita gente, atendimento perfeito, até com lavadoras e secadoras de roupa.
Depondo as mochilas, ao tirar o sapato, surpresa: meu pé estava cheio de bolha.
Passamos a tarde procurando farmácia e internet. Tudo fechado... Os restaurantes só dariam janta a partir das oito horas . E o menor valor seria dez dólares. Por sorte encontramos uma pizaria que nos serviu um "prato feito" gostosíssimo por 6,50. Foi nossa melhor janta até agora. Eu nem consegui comer tudo: salada, batata frita e dois tipos de uma carne enrolada num espeto. Eu não conhecia. Especialíssimo.
Só pelas 16,30 horas conseguimos achar uma farmácia aberta. Depois disso encontramos também um serviço de internet onde o Igor conseguiu descarregar suas fotos. De volta ao albergue, Igor, o meu enfermeiro particular, fez um curativo no meu pé. Fui sozinha à Catedral (lindíssima) receber a bênção dos peregrinos. Andei sozinha em Pamplona para carimbar nossas credenciais. Que chique!!!
Foi um dia maravilhoso! O Igor se mostrou atenciosíssimo! Já no dia anterior todo mundo perguntava pelo filho que carregara a mochila da mãe.
Hoje a admiração por ele aumentou. No início do caminho que teve poucas subidas, ele enfeitou minha bengala com flores. Cada flor diferente que encontrava, ele a colhia e juntava às outras. Quando paramos para lanchar as pessoas pediam para nos fotografae. Ou por causa da bengala enfeitada, ou, por causa do filho (lindo demais, é claro) que fazia o caminho com a mãe. Fomos os únicos: mãe x filho. Havia casais, idosos, jovens e até crianças. As mães, principalmente, perguntavam, comentavam, falavam dos seus fulhos... achavam lindo! Os homens elogiavam: "C'est un joyeuse bouquet", disse um francês.
Nossa baguete pequena acabou hoje. Ainda temos uma maçã, a laranja e linguiça (que o Igor adora). O queijo acabou. Degustamos o chocolate. Não precisamos parar tantas vezes.
Recolhemo-nos, fizemos nossas anotações, eu fiz sodoku. Inda bem que eu fiquei sabendo bem mais tarde que na noite anterior, nesse albergue, um peregrino tivera parada cardíaca e falecera. É verdade que ninguém imagina ou espera por algo assim.

Larrasoaña Pamplona - Bolhas

Saimos de Larasoana as 7, não estava tão frio então resolvi ir de bermuda e camiseta,a cerração permanecia. Eram apenas 15 km mas ainda foi difícil. As massagens de ontem fizeram efeito, tive muito pouca dor, o que ajudou também foi termos tomado comprimidos de  dorflex antes de começar a caminhada. Chegamos em Pamplona e não encontramos o albergue, eles haviam mudado de lugar da última vez que estive la. O novo é muito mais bonito e moderno. Os banheiros sao mistos, porem limpos e espaçosos, as camas sao ótimas.

A mãe acabou desenvolvendo uma bolha na joanete. Precisamos então: curar as bolhas, jantar, descobrir como se liga para o brasil e passar as fotos para o pen drive (sobraram espaços para umas 30 só).

Chegamos ao albergue e eu finalmente lavei minhas roupas, pois possuia maquina de lavar e secar que demoramos um pouco para aprender a mexer , acabei tirando minha roupa ainda molhada da secadora, pois estava demorando muito. Tomamos banho e saimos, não visitamos muitas coisas, estávamos cansados. Fomos na plaza mayor e na estátua dos touros, deixei pra ver a cidadela no outro dia, ja que o caminho passa ao lado. Encontramos o restaurante da outra vez mas abria muito tarde, a cidade inteira estava de greve e a maioria dos lugares estavam fechados, picharam inclusive caixas eletronicos. Não havia nenhuma farmácia aberta e nada de internet.

As 4:30 as farmácias abriram, compramos o spray e o compeez, demoramos para encontrar um lugar para comer, a maioria começava servir somente a partir das 8. Por sorte achamos um restaurante que vendia kebab, prefeito,  estávamos famintos e a comida foi farta, ótima e muito barata. Conseguimos saber como ligar para o brasil 0055xx xxxxx. Enviei uma mensagem para o pai mas não tive resposta.

Finalmente achamos um ciber aberto onde conseguimos transferir as fotos, mandei uma email para a carina e fernando. Voltamos para o albergue e ajudei no curativo da bolha da mãe, vamos ver o que acontece.

A paisagem ainda são lindas florestas misteriosas apesar do pequeno trecho de carreteira. Identifiquei alguns lugares: A subidona e a ruina nas pedras.
Passamos por arre, mas não achei a vendinha bacana da outra vez. Estou agora escutando brasileiros no andar de cima. Baterei uma foto da minha visao nesse momento.

http://picasaweb.google.com.br/espanha2009igor/5LarrasoanaAPamplona21mai2009#