Não sei se por causa do vinho, mas foi uma noite de pesadelos: acidentes, machucados, tios já falecidos, primos, uma miscelânia: até briguei com o Gustavo. Falei alto tanto assim que o Igor me acordou com um toque, graças a Deus.
Saímos às 7,30 hs. Passamos por uma criança ainda na cidade: "Deve ser uma das duas", falei, pois Nenê nos dissera que só havia duas crianças na cidade. Aliás, passamos por muitas cidadezinhas que pareciam abandonadas. Dizem que são realmente abandonadas pois os filhos vão para os grandes centros para estudarem e não voltam. Acabam levando os pais. Um jornal mostrava a única criança de uma cidadezinha e tinha três anos.
Como nos dias anteriores tudo era plano com plantações de trigo por todos os lados. Muuuuuuuuuuito frio! Muuuuuito vento! Tivemos que proteger mais uma vez nossas orelhas. Nossas mãos geladas! O sol nos agraciou mas o vento chegava a empurrar-nos com as mochilas, desequilibrando-nos.
O Igor chamava minha atenção para os presentes do caminho: ao longe as Montanhas de Europa com neve, as ondulações dos trigais embaladas pelo vento, uma verdadeira dança. Lembrei muito da mana Ilse. Ela era uma apaixonada por trigais. O vôo solitário de uma ave na imensidão do azul (condor, águia, ave de rapina - não importa), ora parecia acompanhar-nos, ora planava como se suspensa no infinito, dando asas também a nossa imaginação. De repente o perfume que nos tem acompanhado durante dias. A gente respira fundo e começa a procurar sua origem. Ei-la novamente a nossa frente: o buquê de florzinhas amarelas cujo nome queríamos descobrir em agradecimento pelo aroma especialíssimo com que nos vinha brindando por toda Espanha. É claro que houve muitos outros perfumes: de rosas, de jasmins; esse , no entanto acompanhou-nos por todo caminho.
Caminhamos devagar para observarmos tudo: um verdadeiro passeio.
Chegando à cidade o albergue ainda exigiu uma boa caminhada pela cidade. Parecia não chegar nunca. Ei-lo finalmente: O Albergue das Monjas Beneditinas. Chegamos à uma hora mas só abriria à 1,30. O senhor Henrique, o hospitaleiro, foi muito prestativo e gentil. Explicou-nos o regulamento minuciosamente. Como de costume, tomamos banho, lavamos roupas, descansamos. O Igor leu e eu comecei os meus relatos. Igor ficou de porteiro durante uma saída do Sr. Henrique. às l9 hs. houve as "Completas", orações diárias das Monjas às quais fomos convidados a assistir. É uma oração cantada em latim acompanhada de órgão de tubos. Aliás, na Espanha, todas as igrejas ainda tem esses órgãos de tubos. (Lembrava sempre do Frei Léo, freizinho que sofria de Alzheimer. Quando tentava fazê-lo lembrar do passado sempre
dizia que tocava órgão de tubos. ) Eram apenas oito monjas das quais três bem velhinhas (quase não se aguentavam em pé) e apenas três não grisalhas, isto é, mais novas. Não havia monjas jovens. Ao final da oração a mais nova nos chamou, peregrinos, ante o altar e leu uma bênção lindíssima que pedi para copiar.
Depois, de volta ao convento, discutimos nosso percurso do dia seguinte com as alemãs Hedwig e Verônica quando também pude treinar meu alemão. 9 hs - cama. Ficamos, dessa vez só em três. Fez-nos companhia um americano que reencontramos inúmeras vezes pelo caminho. Igor falava com ele em Inglês. Ainda escrevi até às 10 hs quando fui dormir. Adorei dormir mais uma vez num convento.
Ainda preciso registrar o carinho com que o Igor cuidou mais uma vez das minhas bolhas, ontem e hoje e, agora também das minhas cãimbras e dores com massagem. Compramos uma pomada pois o spray não fez efeito.
Sonos interrompidos
Há 2 meses
É tão bom ler as tuas lembranças tão bem marcadas e escritas, estou viajando pela segunda vez :)
ResponderExcluir