Nesse dia passamos pela primeira prova do caminho. Levantamos cedinho, cheios de entusiasmo. Queríamos ser os primeiros... Encantados com o frio gostoso do amanhecer, com a majestade dessa paisagem francesa: montanhas, cavalos, ovelhas, cerração, pedras muito antigas, vacas pastando... muitos peregrinos nos ultrapassando... E... só subida... Fiquei assustada... Ficou difícil. Já nas primeiras horas chorei com pena do Igor. Tinha medo de decepcioná-lo por não conseguir fazer o caminho. Eu não teria conseguido prosseguir mas ele, gentil e preocupado, ofereceu-se para carregar minha mochila também (junto com a dele dava uns 16 quilos: o dobro do que ele deveria carregar). Isso foi na subida dos Pirineus. No topo, de repente, entre as nuvens avistamos uma estátua de Nossa Senhora do Caminho. Chorei diante dela. Pedi-lhe que me desse forças, que eu queria fazer todo o caminho.Entreguei-lhe todos os meus, principalmente os meus três filhos que lhe consagrei desde o nascimento.Nas mãos do seu menino deixei o terço que a Ilse (minha mana) tinha na sua bolsa na ocasião do acidente de carro que a matou e lhe pedi especial atenção para os filhos dela e que, esteja onde estiver, que cuide bem dela.
Continuei mais animada também porque agora iniciava a descida. Já não era mais tão difícil e a natureza maravilhosa nos distraía. Eram bosques e mais bosques. Pareciam mágicos. O Igor relembrava seus sonhos de infância.
Encontramos uma lápide de algum peregrino que ficou aqui pelo caminho fazendo-nos refletir sobre a vulnerabilidade de nossas vidas, de nossos dias.
No meio de um bosque encontramos uma fonte... Que fonte!!!!!!!!!! Parecia encantada. Bebi nela a mais deliciosa água da minha vida. Ainda agora, fechando os olhos... respirando fundo, sinto-a fortalecendo todo meu ser.
De repente, eis que de repente nos deparamos com neve acumulada... O sonho do Igor...
Ele nunca vira neve e vinha sonhando com ela desde o começo do caminho. Brincou feito criança. Aos peregrinos que passavam ele a apresentava emocionado e lhes pedia que nos fotografassem.
Levamos onze horas caminhando. Pelas 18 horas chegamos a um riacho com um frio que me gelou os ossos. Estávamos finalmente em Roncesvalles.
Tomamos banho ( disse o Igor que foi o melhor banho de sua vida: água quentinha
, ducha forte capaz de tirar toda nossa canseira). Jantamos em companhia de um casal francês. Comemos sopa, truta e um iugurte, acompanhados por um delicioso vinho.
Seguiu-se a missa do peregrino a qual o Igor me acompanhou. Fiquei felicíssima por isso.
Fora da igreja um casal amigo que conhecemos no domingo em Saint Jean, brasileiros (ele: funcionário do Serpro de Brasília, ela: funcionária do senado) nos esperava. Tentamos um papo mas o frio estava demais motivo pelo qual nos recolhemos para dormir.
Que delícia deitar numa cama confortável depois de um dia de caminhada.
Todo suicida voa
Há um mês
Nenhum comentário:
Postar um comentário