A nossa aventura está chegando ao fim. Levantamos cedo (7 e pouco) pois iríamos de metrô à estação de autobuses rumo à Àvila, cidade onde nasceu e viveu Santa Teresa, doutora da Igreja. Nosso amigo, o escritor Deonísio da Silva, quando soube que iríamos à Espanha, nos sugeriu: "Não deixem de ir à Ávila". Santa Teresa é a musa inspiradora de um dos seus livros. A viagem de ida já foi uma surpresa só pela paisagem. Uma enorme cruz de ferro ao longe entre montanhas, sobre uma colina se destacava, nos deixando curiosos. Um enorme cartaz apresentava Ávila como patrimônio da humanidade. Ao chegar compreendemos quão difícil seria escolhermos o que visitar pois só dispúnhamos de um dia. Por isso fomos atrás de uma agência de turismo e com o mapa em mãos fizemos um roteiro do que seria possível.
Iniciamos por uma Igreja antiquíssima, bem no centro rodeada de praças. As muralhas, impressionantes, deixamos para o final. Fomos à procura da igreja que foi construída sobre o local onde a santa nasceu. Foi muita emoção. Toda igreja é um museu, mas a capelinha feita sobre o local onde ela nasceu impressiona. Cada detalhe: bancos, luzes, cores, imagens, falam dessa mulher que viveu apenas sessenta e um anos mas deixou marcas que ultrapassando a sua época ainda hoje sensibilizam a quem se aproxima das coisas que ela tocou. Ficamos, Igor e eu, sentados... por um bom tempo, apenas sentindo... refletindo. Sem dúvida, CADA pessoa deixa no seu ambiente a SUA MARCA.
Ao lado da igreja há uma janela que dá para um minúsculo jardim. Teria sido um lugar muito frequentado por ela. Dali fomos a uma sala com relíquias dela: seu terço, a bengala, pedaços de tecido do hábito, uma sola do seu sapato. Devia calçar número 35. O mais impressionante é o osso anular da mão direita com a unha perfeitinha. Há também dois ossos de São João da Cruz, grande companheiro e amigo da santa. Uma cruz de mais ou menos um metro de altura feita com madeira da casa onde ela nasceu. Senti ali, principalmente e diante do rosário e da sola de sapato a mesma reção energética que senti na capelinha onde nasceu. Mas o mais intenso senti diante do seu rosário. Eu parecia sentir a energia de suas mãos me alcançarem a partir daquelas contas. Eu me sentia hipnotizada. Voltei três vezes para diante dele. Sem dúvida, algo dela ali se fazia presente. Ao chegarmos à sala havia muitos visitantes, por isso, por sugestão do Igor voltamos sozinhos com mais calma. Pedi muito por meus filhos, principalmente pela defesa da tese de doutorado da Carina, naquele dia. Seria coincidência? Gostaria de estar com ela... Na sala de relíquias há também a bula papal que declara Teresa doutora da igreja. Pedi-lhe que se fizesse presente na defesa da Carina, que cuidasse do Nando e iluminasse o caminho e a vida do Igor
Visitamos outra igreja onde três jovens foram torturados, depois assassinados pelos romanos. Uma jovem e seus dois irmãos. Uma longa escada desce ao local onde foram mortos, transfomado em capelinha. Uma das paredes é de rocha viva, testemunha implacável mas eloquente até hoje da estupidez humana, da ousadia dos que se consideram senhores da vida de outrem. O pior é que depois de tanto tempo uma grande parte da humanidade continua a mesma: matando, dominando, subjugando em proveito próprio.
Para finalizar subimos as muralhas que cercavam a cidade. Hoje a cidade se expandiu para além delas. A vista que se tem lá de cima é emocionante. O que mais impressiona é a sua imponência. Parece mais feita por gigantes e para gigantes. Depois dessa contemplação passamos para outra: um dos parques da cidade. Lindo, como todos os parque da Espanha.. Descansamos, inspiramos a energia daquele verde, sonhamos... e decidimos que, já que não poderíamos ver tudo, retornaríamos com o ônibus das 3,15 hs. Valeu Ávila!!! Encerramos com chave de ouro, nossa peregrinação. Foi o melhor que poderíamos ter feito.
Ao entrarmos no ônibus, um passageiro que viajava em frente ao nosso banco, ouvindo-nos falar em português, apresentou-se como brasileiro, trabalhando em Ávila há seis anos. Mora em Madri e às sextas feiras viaja para ver a família. É natural de Rondônia e sente muita falta do Brasil. No caminho ele nos mostrou a cruz que víramos na ida e nos explicou que ali estaria enterrado o general Franco.
De volta a Madri (tomamos dois metrôs) jantamos pizza e voltamos ao apartamento. Ao ligarmos a TV soubemos que no momento em que tomamos o ônibus pela manhã dois trens haviam se chocado sem feridos graves. Soubemos também da morte do cantor Michael Jackson.
À tarde eu mandara uma mensagem para a Carina desejando-lhe sucesso na defesa da tese. Esperamos ansiosos e, finalmente ela ligou dizendo que fora bem e que sua classificação fora "A". Que naquele momento iriam comemorar. Que alívio!!! Fiquei ligada a tarde inteira desde Ávila, mandando-lhe LUZ e energia até a hora em que ligou. Mais uma etapa vencida. A vitória de nossos filhos é a nossa vitória, a alegria deles, a nossa alegria. E... é ao UNIVERSO que eu agradeço, pelos filhos, pela VIDA.
Todo suicida voa
Há um mês
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